Opinião

  • 17/08/2016

    Se é público é para todos: Defender a Caixa é defender o Brasil

    Balanço divulgado pelo banco já mostra desaceleração em programas sociais e corte de empregos.

    A carteira de crédito ampliada da Caixa cresceu somente 6,7% no primeiro semestre deste ano. O índice consta de relatório recentemente divulgado pela instituição com dados do período. É um percentual bem menor do que o registrado no primeiro semestre de 2015, de 17%, o que aponta para a adoção de uma política que afasta o banco de seu papel social e resulta do ajuste fiscal do governo, responsável pela retração da economia, com diminuição do emprego. E este é apenas um entre os indicadores que vêm se somar a perspectivas também nada favoráveis para o povo brasileiro e os empregados da Caixa, vez que o governo golpista deixou claro que privatizações serão feitas indiscriminadamente.

    Loteria, seguros e cartões estão certamente nessa lista de "privatizáveis". É preciso reforçar, porém, que dos R$ 5,9 bilhões arrecadados com a loteria neste semestre, cerca de R$ 2,2 bilhões foram transferidos aos programas sociais do governo federal nas áreas de seguridade social, esporte, cultura, segurança pública, educação e saúde. Entre estes programas figuram o FIES, com 19%, o Fundo Nacional de Cultura (7,6%), o Esporte (18,8%), Fundo Nacional de Saúde (0,7%), Fundo Penitenciário (8,1%) e a própria Seguridade Social, com 45,9%. Não é necessário ser vidente para saber que, caso essas operações sejam concedidas ao setor privado, não haverá repasses em benefício da sociedade, porque o objetivo central (senão o único) das empresas compradoras será a lucratividade.

    Outra ameaça em curso diz respeito à quebra do monopólio da Caixa sobre o FGTS. Nesse "debate", a grande imprensa - liderada pelas organizações Globo - defende descaradamente que os recursos sejam partilhados com os bancos privados, cujo único objetivo é o de lucrar mais à custa dos recursos dos trabalhadores, sem nenhum compromisso com o desenvolvimento do Brasil. Dentre as várias finalidades do FGTS hoje está o investimento em habitação popular e infraestrutura, áreas nas quais a Caixa se destaca.

    Assim como na carteira de crédito, a desaceleração na Caixa se observa também na comparação anual, segundo o Dieese, em programas exitosos na redução da desigualdade social, como é o caso do Minha Casa Minha Vida: em 2014, foram contratadas 389,2 mil unidades habitacionais. No ano passado o número caiu para 347 mil. Nesse segmento ficou clara a mudança de rota do governo, ao cortar investimentos em habitação para as camadas mais carentes e autorizar o financiamento para imóveis de alto padrão.

    Como representante dos trabalhadores no CA da Caixa, destaco ainda que, especificamente para os empregados do banco, a situação é de alerta e exige resistência. A Caixa teve lucro menor na comparação com o primeiro semestre do ano passado, mas, ainda assim, o montante atingiu R$ 2,448 bilhões. No entanto, mesmo lucrando, 2.235 empregos foram cortados em doze meses (junho de 2015 a junho de 2016), sendo 1.304 em apenas três meses (de março a junho). E, se houve aumento no número de clientes - mais 4,231 milhões em doze meses, passando a 85.080 milhões de clientes. Ou seja: há mais clientes, mas menos empregados para atendê-los, piorando o ambiente de trabalho e condições de saúde dos bancários.

    É imprescindível que os trabalhadores da Caixa percebam que o que está em jogo é o futuro do País. Com o golpe, estão sob ameaça o papel da Caixa como instituição financiadora do desenvolvimento do Brasil e, em consequência, o emprego e a qualidade das condições de trabalho. A disputa é entre o Estado de bem-estar social que desejamos (e que avançou alguns passos nos últimos anos) e o Estado Mínimo, sem serviços públicos e universais e de empresas públicas.

    Lutar contra a privatização de serviços e empresas é a bandeira central do Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas, que coordeno desde o início das atividades contra o projeto de lei de responsabilidade das estatais (PLS 555). Após muita mobilização pelo País, o projeto tornou-se a lei 13.303, mas conseguimos reverter itens privatizantes e prosseguimos com ações em prol do público, como o lançamento da campanha "Se é público, é para todos", em junho passado no Rio de Janeiro, e que agora se espalha pelo Brasil.

    Nossa proposta é que a bandeira dos bens e serviços públicos seja também a de todas as categorias em campanha salarial neste semestre. Só assim, unidos, poderemos reagir ao golpismo que almeja o retrocesso para atender a grupos privados e empresas multinacionais e ataca os direitos de todos os brasileiros. Temos, portanto, muita luta pela frente e - sempre é bom destacar - só mesmo a luta nos garante.

    Maria Rita Serrano Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas